O Bom Rei Venceslau
Tempos Litúrgicos

O Bom Rei Venceslau

por Vida de Santo

Idades 5-6
6 min de leitura

Na Boêmia, uma terra de florestas e montanhas onde hoje fica a República Tcheca, o inverno chega com neve até o joelho. Foi lá, faz mais de mil anos, que viveu o homem de quem fala uma das cantigas de Natal mais conhecidas do mundo. A cantiga começa no dia seguinte ao Natal, o dia de Santo Estêvão, quando as casas ainda cheiravam a comida de festa. Ela conta que Venceslau, o senhor daquele povo, foi até a janela ver como estava a noite.

A neve tinha coberto tudo, lisinha e branca, sem uma pegada sequer. A lua brilhava tão clara que dava para enxergar longe, e o frio cortava como faca. Foi então que Venceslau viu, bem lá no fim do campo, um homem curvado, catando gravetos secos para acender o fogo de casa.

Venceslau chamou o pajem, um menino que o ajudava no dia a dia.

— Venha cá, meu rapaz. Você sabe quem é aquele homem, e onde ele mora?

— Sei sim, senhor — respondeu o pajem, encostando o rosto no vidro. — Mora longe daqui, lá embaixo da montanha, junto à cerca da floresta, perto da fonte de Santa Inês.

— Então me traga carne e me traga vinho, e traga também lenha de pinheiro. Nós dois vamos levar tudo até a casa dele, e o jantar dele vai ser quente esta noite.

Os dois saíram pela neve carregando os cestos. No começo foi até divertido, com a lua acesa lá em cima. Mas o vento foi ficando mais bravo, a noite foi ficando mais escura e a neve foi ficando mais funda, e o pajem começou a andar cada vez mais devagar, com os pés doendo de frio.

— Senhor, não sei se eu consigo — disse ele, quase parando. — O vento está forte demais.

— Venha atrás de mim, bem atrás — respondeu Venceslau. — Pise no meu passo, com o seu pé bem no lugar onde eu pisei.

O pajem pisou onde o senhor tinha pisado. E, conta a cantiga, cada pegada aberta na neve guardava um calorzinho, como se a terra tivesse lembrado do verão. Assim os dois foram andando, um passo atrás do outro, até a cerca da floresta. Deixaram a carne, o vinho e a lenha na porta da casa pobre e voltaram para casa pela mesma trilha.

Passara o dia de Natal,

a neve cobria o chão;

brilhava a lua no céu,

mordia o frio na mão.

Olhando pela janela,

o rei viu um pobrezinho

catando gravetos secos

na beira do seu caminho.

— A partir da cantiga de John Mason Neale

O Venceslau de verdade se chamava Václav e nasceu por volta do ano 907. Quem cuidou dele quando era pequeno foi a avó, Ludmila, que lhe ensinou a rezar e a reparar em quem precisava de ajuda. Quando cresceu e virou duque da Boêmia, ele não perdeu o costume: as crônicas antigas contam que saía de noite, com um único criado, levando lenha e comida para viúvas, órfãos e presos. O povo dizia que ele não parecia um príncipe, e sim o pai de todos os pobres.

Nem todo mundo gostava de um governante assim. Numa manhã de setembro do ano 935, ainda moço, Venceslau foi morto à porta de uma igreja por homens do seu próprio irmão, Boleslau. Mais tarde, arrependido, o irmão mandou levar o corpo dele para Praga, para a igreja de São Vito, e até hoje o povo tcheco chama Venceslau de padroeiro e amigo daquela terra.

E, todo mês de dezembro, do outro lado do mundo, alguém canta de novo a história do rei e do pajem andando na neve, um passo atrás do outro.

❤️ ✝️ ❤️

Reflexão

Venceslau podia ter mandado um criado levar os cestos, mas foi ele mesmo quem calçou as botas e enfrentou o vento. Quando a gente faz o bem com as próprias mãos, abre na neve uma trilha que aquece os pés de quem vem atrás. Amanhã pode ser você abrindo esse caminho para alguém.

📖 Histórias Similares

Santa Luzia, a Luz do Advento

Santa Luzia, a Luz do Advento

6 min de leitura

Numa cidade à beira do mar da Sicília, uma menina cujo nome queria dizer luz repartiu tudo o que tinha e virou a santa das velas.

Ler história
São Nicolau e o Natal

São Nicolau e o Natal

6 min de leitura

De uma cidade à beira-mar até a sua casa, o nome de um bispo bondoso fez uma viagem muito comprida e voltou com outra roupa.

Ler história
O Primeiro Presépio

O Primeiro Presépio

6 min de leitura

Numa noite de Natal, numa aldeia italiana no alto de uma montanha, São Francisco quis ver com os próprios olhos como tinha sido Belém.

Ler história