Na Boêmia, uma terra de florestas e montanhas onde hoje fica a República Tcheca, o inverno chega com neve até o joelho. Foi lá, faz mais de mil anos, que viveu o homem de quem fala uma das cantigas de Natal mais conhecidas do mundo. A cantiga começa no dia seguinte ao Natal, o dia de Santo Estêvão, quando as casas ainda cheiravam a comida de festa. Ela conta que Venceslau, o senhor daquele povo, foi até a janela ver como estava a noite.
A neve tinha coberto tudo, lisinha e branca, sem uma pegada sequer. A lua brilhava tão clara que dava para enxergar longe, e o frio cortava como faca. Foi então que Venceslau viu, bem lá no fim do campo, um homem curvado, catando gravetos secos para acender o fogo de casa.
Venceslau chamou o pajem, um menino que o ajudava no dia a dia.
— Venha cá, meu rapaz. Você sabe quem é aquele homem, e onde ele mora?
— Sei sim, senhor — respondeu o pajem, encostando o rosto no vidro. — Mora longe daqui, lá embaixo da montanha, junto à cerca da floresta, perto da fonte de Santa Inês.
— Então me traga carne e me traga vinho, e traga também lenha de pinheiro. Nós dois vamos levar tudo até a casa dele, e o jantar dele vai ser quente esta noite.
Os dois saíram pela neve carregando os cestos. No começo foi até divertido, com a lua acesa lá em cima. Mas o vento foi ficando mais bravo, a noite foi ficando mais escura e a neve foi ficando mais funda, e o pajem começou a andar cada vez mais devagar, com os pés doendo de frio.
— Senhor, não sei se eu consigo — disse ele, quase parando. — O vento está forte demais.
— Venha atrás de mim, bem atrás — respondeu Venceslau. — Pise no meu passo, com o seu pé bem no lugar onde eu pisei.
O pajem pisou onde o senhor tinha pisado. E, conta a cantiga, cada pegada aberta na neve guardava um calorzinho, como se a terra tivesse lembrado do verão. Assim os dois foram andando, um passo atrás do outro, até a cerca da floresta. Deixaram a carne, o vinho e a lenha na porta da casa pobre e voltaram para casa pela mesma trilha.
a neve cobria o chão;
brilhava a lua no céu,
mordia o frio na mão.
Olhando pela janela,
o rei viu um pobrezinho
catando gravetos secos
na beira do seu caminho.
O Venceslau de verdade se chamava Václav e nasceu por volta do ano 907. Quem cuidou dele quando era pequeno foi a avó, Ludmila, que lhe ensinou a rezar e a reparar em quem precisava de ajuda. Quando cresceu e virou duque da Boêmia, ele não perdeu o costume: as crônicas antigas contam que saía de noite, com um único criado, levando lenha e comida para viúvas, órfãos e presos. O povo dizia que ele não parecia um príncipe, e sim o pai de todos os pobres.
Nem todo mundo gostava de um governante assim. Numa manhã de setembro do ano 935, ainda moço, Venceslau foi morto à porta de uma igreja por homens do seu próprio irmão, Boleslau. Mais tarde, arrependido, o irmão mandou levar o corpo dele para Praga, para a igreja de São Vito, e até hoje o povo tcheco chama Venceslau de padroeiro e amigo daquela terra.
E, todo mês de dezembro, do outro lado do mundo, alguém canta de novo a história do rei e do pajem andando na neve, um passo atrás do outro.
Reflexão



