Há muito tempo, numa cidade chamada Myra, bem junto ao mar, morava um bispo chamado Nicolau. Myra ficava na região da Lícia, onde hoje é a Turquia, e aquele lugar se chama Demre agora. Nicolau viveu no século quatro, quer dizer, há mais de mil e seiscentos anos. Ele gostava de duas coisas acima de todas: cuidar dos pobres da sua cidade e fazer isso sem que ninguém visse.
Talvez você já conheça a noite dos três sacos de ouro, quando Nicolau ajudou escondido uma família que estava em grande aperto. Esta aqui é outra história. É a história da viagem comprida que o nome dele fez pelo mundo, até chegar dentro da sua casa, no mês de dezembro.
O dia seis de dezembro
Nicolau morreu num dia seis de dezembro, e as pessoas de Myra guardaram aquela data com carinho. Todo ano, quando chegava o dia seis, elas se lembravam do bispo que dava presentes em segredo. Os marinheiros o escolheram como padroeiro e levaram as histórias dele de porto em porto. No ano de 1087, mercadores italianos levaram os restos do santo para a cidade de Bari, na Itália, e construíram ali uma igreja em sua honra.
Assim o nome de Nicolau foi chegando à Grécia, à Rússia, à Alemanha, à Holanda. Em cada lugar as pessoas faziam no dia dele a mesma coisa que ele fazia: davam presentes escondido. Os pais escondiam doces e moedinhas na véspera e diziam que tinha sido São Nicolau. As crianças acordavam, encontravam a surpresa e nem desconfiavam. Era o segredo do bispo continuando, agora dentro de cada casa.
Sinterklaas
Na Holanda, o nome Sint Nikolaas foi encolhendo na boca das crianças até virar Sinterklaas. Os holandeses o imaginavam como um bispo dos tempos deles: barba branca, com capa vermelha e mitra na cabeça, montado num cavalo branco. Na noite de cinco de dezembro, véspera do dia do santo, as crianças deixavam os sapatos perto da lareira ou da janela. Dentro de cada sapato punham um punhado de feno ou uma cenoura, não para elas, mas para o cavalo.
De manhã o feno tinha sumido, e no lugar havia pepernoten, uns biscoitinhos redondos de especiarias, ou uma letra de chocolate, a primeira letra do nome de cada um. É por isso que ainda hoje tanta gente pendura meias na noite de Natal: a meia pendurada na chaminé apareceu depois, em Nova York, e lembra muito aqueles sapatos holandeses.
A travessia do mar
Então muitas famílias holandesas atravessaram o oceano e foram morar do outro lado do mar, numa cidade nova que chamaram de Nova Amsterdã. Levaram na bagagem as panelas, as sementes e as canções. Com o tempo aquela cidade mudou de dono e de nome, e passou a se chamar Nova York. Muito tempo depois, já falando inglês, as famílias de origem holandesa de lá começaram a lembrar de novo do santo dos seus avós.
Ali as pessoas falavam inglês, e a língua inglesa foi mastigando o nome do seu jeito, até que Sinterklaas virou Santa Claus. Depois vieram escritores de Nova York que contaram e cantaram esse Santa Claus do seu próprio jeito, e foram eles que lhe deram a chaminé, e depois o trenó e as renas, na véspera do Natal. No Brasil, o nome chegou pelo francês Père Noël, que quer dizer Papai Natal. E virou o nosso Papai Noel.
De quem é o aniversário
Repare que caminho comprido: Myra, Bari, Amsterdã, Nova York, o Brasil. Um bispo de verdade atravessou mil e seiscentos anos e chegou até você com outra roupa e outro nome. Debaixo da barba branca do Papai Noel mora Nicolau, que dava sem aparecer e não queria agradecimento nenhum.
E tem uma coisa que ele gostaria muito que você soubesse. O dia de Nicolau é seis de dezembro, e o dia vinte e cinco não é dele: é o aniversário de Jesus. Se você pudesse perguntar ao bispo de Myra o que fazer no Natal, ele não apontaria para si mesmo. Ele apontaria para a manjedoura de Belém, e depois para a porta de alguém que está precisando.
Reflexão



