Faz muito tempo, numa cidade chamada Siracusa, à beira do mar da ilha da Sicília, morava uma menina chamada Lúcia. O nome dela vinha de uma palavra antiga, lux, que quer dizer luz. Era um bom nome para quem tinha nascido numa terra de sol, mas Lúcia ainda ia descobrir que existem luzes acesas por dentro, e que essas o vento não apaga. A família dela era rica: casa grande, criados e baús guardados nos fundos. O pai morreu quando ela era pequena, e Lúcia ficou morando com a mãe, dona Eutíquia.
Dona Eutíquia estava doente havia anos, de uma doença que médico nenhum conseguia curar. Um dia, Lúcia teve uma ideia e convidou a mãe para uma viagem curta até Catânia, uma cidade ali perto, onde ficava o túmulo de Santa Águeda. Elas foram juntas, rezaram muito tempo e voltaram devagar pela estrada. Conta a tradição que, no caminho de volta, dona Eutíquia percebeu que estava curada.
Foi então que Lúcia fez um pedido à mãe.
— Se Deus nos deu essa alegria, vamos repartir o que temos.
Dona Eutíquia disse que sim. E, de pouquinho em pouquinho, os baús da casa foram ficando vazios: moedas, panelas, mantas, vestidos bons. Tudo foi parar nas mãos de quem passava fome em Siracusa, e a porta daquela casa vivia aberta.
Naquele tempo, o imperador de Roma se chamava Diocleciano, e ele tinha mandado prender os cristãos por toda parte. Mas o perigo maior estava mais perto. A família de Lúcia tinha combinado o casamento dela com um rapaz, e esse rapaz contava os baús com os olhos. Quando soube que a fortuna estava indo para os pobres, ficou furioso, foi até Pascásio, o governador da Sicília, e contou que Lúcia era cristã.
Lúcia foi levada diante do governador. Primeiro ele falou com jeitinho, prometendo coisas; depois falou duro, ameaçando. Ela respondia sempre a mesma coisa, com a voz calma: era de Jesus e ia continuar sendo. Nem promessa nem ameaça conseguiu mudar aquela resposta.
Lúcia morreu naquele dia, no ano 304, ainda bem jovem, sem negar aquilo em que acreditava. Os cristãos de Siracusa a enterraram com cuidado e nunca mais esqueceram o nome dela. Cerca de cem anos depois, numa pedra guardada nos corredores subterrâneos da cidade, alguém já escrevia "o dia da minha senhora Lúcia" como quem fala de uma festa que todo mundo conhece.
Essa festa ficou marcada no dia 13 de dezembro. No calendário antigo, esse dia caía quase na noite mais comprida do ano lá no norte da Europa: o sol sumia cedo, a neve cobria os caminhos e as pessoas esperavam o Natal no escuro. Foi assim que Luzia virou a santa das velas. Na Suécia e na Noruega, ainda hoje, uma menina se veste de branco, põe na cabeça uma coroa de velinhas acesas e sai de manhã bem cedo levando pãezinhos quentes de açafrão para a família inteira.
No Brasil, muita gente reza a Santa Luzia pedindo cuidado com os olhos. Talvez seja por causa do nome dela, porque luz é justamente aquilo que os olhos procuram. Existem cidades com o nome dela, igrejas com o nome dela, e gente que acende uma vela branca na janela no dia 13 de dezembro.
O Advento é esse tempo de esperar: quatro semanas de noites compridas antes do Natal, com uma velinha a mais acesa a cada domingo. Luzia atravessa esse tempo na frente, como quem vai abrindo caminho no escuro para os outros passarem. E, quando a última vela acender, Jesus já vai ter nascido.
mas alguém acende a luz.
Uma chama, pequenina,
vai andando até Jesus.
Reflexão



