Existe um calendário escondido dentro do ano da Igreja. Não é um calendário comum, desses de parede, com os dias em fila e os números bem quadradinhos. É um calendário de nomes. Quase todo dia do ano tem o nome de um santo escrito nele, como se fosse um aniversário: no dia 4 de outubro é a festa de São Francisco de Assis, no dia 13 de junho é a de Santo Antônio, no dia 12 de outubro é a de Nossa Senhora Aparecida.
Só que aconteceu uma coisa curiosa com esse calendário. Por mais dias que o ano tivesse, nunca eram suficientes. Os santos foram ficando mais numerosos do que os dias.
Mais Santos do que Dias
Pense um pouquinho. Um ano tem trezentos e sessenta e cinco dias, e em alguns anos, trezentos e sessenta e seis. Mas as pessoas que amaram a Deus de verdade, ao longo de todos os séculos, em todos os cantos do mundo, são muito mais do que isso. São mais do que mil, mais do que um milhão. Ninguém nunca conseguiu contar.
A maior parte delas não ganhou festa nenhuma. Não tem estátua na igreja, nem rua com o seu nome, nem livro contando a sua história. Eram pessoas comuns, com mãos comuns, que fizeram uma coisa nada comum: viveram amando, até o fim, sem ninguém reparar.
Foi então que a Igreja teve uma ideia bonita. Se não cabe um dia para cada santo, que exista um dia só, enorme, para todos eles de uma vez.
O Dia Primeiro de Novembro
Há mais de mil e duzentos anos, em Roma, um papa chamado Gregório mandou preparar uma capela dentro da grande igreja de São Pedro e a dedicou a todos os santos, num dia 1º de novembro. Tempos depois, outro papa, também chamado Gregório, pediu que a Igreja inteira guardasse essa data. E assim ficou, de século em século, até chegar ao calendário que está pendurado na sua casa.
O 1º de novembro é o Dia de Todos os Santos. É a festa dos santos que você conhece pelo nome e, principalmente, a festa dos santos que ninguém nunca soube o nome.
A Multidão que Ninguém Podia Contar
No último livro da Bíblia, o Apocalipse, um homem chamado João conta uma visão que teve. Ele viu o céu aberto e, diante do trono de Deus, uma multidão imensa, que ninguém podia contar, vinda de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam todos vestidos de branco, com ramos verdes nas mãos, e cantavam juntos.
Ninguém podia contar. Nem João, que estava olhando, deu conta.
É essa multidão que a Igreja celebra no dia 1º de novembro. Gente de toda cor e de toda língua, de todos os tempos, muitos deles com nomes que se perderam pelo caminho. Deus, porém, não perdeu nenhum.
Os Santos de Perto
Talvez você já tenha conhecido alguns deles sem saber.
Uma avó que rezava baixinho todas as noites, com o terço na mão, e nunca contou isso a ninguém. Um vizinho que atravessava a rua com um prato de comida quando alguém da casa adoecia. Uma professora que teve paciência, ano após ano, com o aluno mais difícil da sala. Um homem que perdoou uma coisa grande e nunca cobrou nada em troca.
Nenhum deles saiu no jornal. Nenhum tem imagem de gesso numa igreja, nem vela acesa com o seu retrato. Mas Deus estava olhando o tempo todo, e Deus viu tudo.
O Dia Seguinte
No dia 2 de novembro acontece uma coisa diferente, e é bom não confundir os dois dias. Esse é o Dia de Finados, quando rezamos por todas as pessoas que já morreram, pedindo a Deus que as receba com carinho. Muita gente vai ao cemitério, leva flores e reza pelos avós, pelos pais, pelos amigos que partiram.
São dois dias vizinhos, colados um no outro, e cada um tem o seu jeito. No dia 1º, a alegria de quem já chegou ao fim do caminho. No dia 2, a oração por quem a gente entrega nas mãos de Deus. Um é festa, o outro é abraço.
E Você Também
O mais bonito do Dia de Todos os Santos é que essa festa ainda não terminou de acontecer. A multidão continua crescendo, devagarinho, todos os dias. Sempre cabe mais um.
E ninguém precisa fazer nada enorme para entrar nela. Basta o que já dá para fazer hoje: dividir o lanche, dizer a verdade quando seria mais fácil mentir, pedir desculpa, ajudar sem ninguém mandar, rezar antes de dormir. Foi bem assim, com coisas pequenas e repetidas, que quase todos aqueles milhões começaram.
Moral da História



