João Paulo II começou seu pontificado com uma energia extraordinária. Tinha cinquenta e oito anos, era jovem para um Papa, atlético, cheio de vida, e logo mostrou que seria diferente de todos os anteriores. Seu chamado ao mundo era claro: "Não tenham medo. Abram as portas a Cristo." E ele mesmo abriu as portas, quase ao pé da letra: saiu do Vaticano e foi ao encontro do mundo, tornando-se o primeiro grande Papa peregrino da história.

O Papa Viajante
Em janeiro de 1979, apenas três meses depois de eleito, João Paulo II fez sua primeira viagem, ao México. Foi uma festa: milhões de pessoas saíram para ver o Papa que falava espanhol, que abraçava as pessoas, que sorria. E aquilo era só o começo. Ao longo de vinte e sete anos de pontificado, João Paulo II fez cento e quatro viagens internacionais e visitou cento e vinte e nove países, mais do que qualquer outro líder da história. Somando tudo, percorreu mais de um milhão e duzentos mil quilômetros, o que daria para ir três vezes até a Lua.
A Volta à Polônia
Em junho de 1979, João Paulo II fez a viagem mais importante de todas: voltou à Polônia. O regime comunista não queria a visita, tinha medo dela, mas não podia dizer não ao Papa. Durante nove dias, João Paulo II percorreu o país, e milhões de pessoas foram vê-lo, quase metade da população, como se a nação inteira tivesse saído às ruas.
O Papa falava com coragem. Dizia ao povo que eles não eram órfãos, que tinham dignidade, que eram filhos de Deus. As pessoas choravam ao ouvi-lo, porque pela primeira vez em décadas sentiam esperança.

Aquela visita mudou tudo. Os poloneses se olharam e perceberam que eram muitos, que eram fortes, que não precisavam ter tanto medo. Um ano depois nasceu o Solidariedade, um sindicato de trabalhadores que desafiava o governo comunista, e o Papa o apoiava discretamente, aconselhando e encorajando. Em dez anos, o comunismo caiu na Polônia, e depois em toda a Europa Oriental. Os historiadores concordam que João Paulo II foi uma peça fundamental nessa mudança. Ele venceu sem armas, com a verdade, a coragem e a fé.
13 de Maio de 1981: O Atentado
No dia 13 de maio de 1981, aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora em Fátima, João Paulo II atravessava a Praça de São Pedro abençoando os peregrinos. De repente, soaram tiros. Um homem turco chamado Mehmet Ali Agca havia atirado no Papa. João Paulo II caiu, gravemente ferido no abdômen, e enquanto o levavam às pressas para o hospital, ele murmurava baixinho: "Maria... Maria..." Perdeu muito sangue. Por algumas horas, o mundo inteiro prendeu a respiração.

Os médicos o operaram durante cinco horas, e depois disseram que era difícil explicar como ele havia sobrevivido: a bala passou a poucos milímetros dos órgãos vitais. João Paulo II tinha a sua explicação. Para ele, Nossa Senhora de Fátima o havia salvado. Ele disse mais tarde: "Foi uma mão materna que guiou a trajetória da bala."
Depois de se recuperar, o Papa foi ao Santuário de Fátima agradecer pessoalmente a Nossa Senhora. E a bala que quase o matou foi colocada na coroa da imagem de Nossa Senhora de Fátima, onde está até hoje.
O Perdão Extraordinário
Mas a história não termina aí. Em 1983, João Paulo II fez algo que impressionou o mundo: visitou Agca na prisão. O Papa entrou na cela do homem que havia tentado matá-lo, sentou-se perto dele, e os dois conversaram a sós por vinte minutos. Ninguém sabe exatamente o que disseram. Mas todos entenderam o que aquilo significava: João Paulo II tinha perdoado o seu agressor.
Agca ficou espantado e quis saber por que o Papa o perdoava. João Paulo II respondeu com simplicidade que Jesus nos ensina a perdoar, e que Maria o havia salvado justamente para que ele pudesse dar testemunho do perdão.

As Jornadas Mundiais da Juventude
Em 1985, João Paulo II criou algo novo na Igreja: as Jornadas Mundiais da Juventude, encontros gigantescos de jovens católicos do mundo inteiro com o Papa. O primeiro grande encontro internacional aconteceu em Buenos Aires, na Argentina, em 1987. Depois vieram Santiago de Compostela, Częstochowa, Denver, Manila, onde se reuniram cerca de quatro milhões de pessoas, Paris, Roma, Toronto e tantas outras cidades.
João Paulo II amava os jovens, e os jovens o amavam de volta. Ele dizia a eles:
— Vocês são o futuro da Igreja. Não: vocês são o presente da Igreja!
Ensinamentos Profundos
João Paulo II não era apenas um Papa carismático: era também um grande pensador. Escreveu catorze encíclicas, cartas dirigidas aos fiéis sobre temas importantes, como o trabalho humano, a verdade e a liberdade, a dignidade da vida e a missão da Igreja. Uma das mais famosas é a Evangelium Vitae, o Evangelho da Vida, em defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural.
Ele também dedicou cento e vinte e nove catequeses à chamada Teologia do Corpo, um ensinamento profundo sobre o amor, o corpo e a família. João Paulo II ensinava que o corpo humano não é um objeto, mas templo do Espírito Santo, e que o amor é um dom sagrado de Deus.
Diálogo Inter-religioso
João Paulo II também estendeu a mão às outras religiões. Em 1986, convidou líderes religiosos do mundo inteiro para rezar pela paz em Assis, a cidade de São Francisco. Foi a primeira vez na história que cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e hindus se reuniram assim. O Papa visitou sinagogas e mesquitas e dialogou com todos com respeito, sem nunca esconder a própria fé: para ele, Jesus Cristo é o único Salvador. Ele mostrou que é possível conversar sem abrir mão da verdade, e respeitar sem trair a própria fé.

O Grande Jubileu do Ano 2000
O ano 2000 foi especial para João Paulo II: o Grande Jubileu, os dois mil anos do nascimento de Cristo. Ele preparou aquele ano com muito cuidado, desejando que fosse um tempo de conversão e renovação para toda a Igreja. Abriu a Porta Santa na Basílica de São Pedro, símbolo de Cristo, que é a Porta, e milhões de peregrinos vieram a Roma. João Paulo II, já com oitenta anos e doente, celebrou tudo com serena alegria.
Os Anos de Sofrimento
Nos últimos anos, João Paulo II ficou gravemente doente. Ele tinha o Mal de Parkinson, uma doença que causa tremores e dificulta os movimentos. Foi ficando curvado, as mãos tremiam, falar se tornou difícil. Muitos pediam que ele renunciasse e fosse descansar, pois já tinha feito o suficiente. Mas João Paulo II continuou trabalhando, viajando e ensinando até onde as forças permitiam. Ele explicava com poucas palavras: Cristo não desceu da Cruz, e ele também não desceria.

João Paulo II oferecia o seu sofrimento a Deus. Dizia que o sofrimento, unido a Cristo, nunca é inútil. E a sua presença frágil pregava uma homilia silenciosa e poderosa: a vida humana tem dignidade até o último instante. Idosos, doentes e pessoas com deficiência olhavam para aquele Papa curvado e se sentiam compreendidos. No fim da vida, ele ensinou mais com o seu silêncio do que com mil discursos.
2 de Abril de 2005: "Deixai-me ir à casa do Pai"
No sábado, 2 de abril de 2005, João Paulo II estava morrendo. Ele repousava em seus aposentos no Vaticano, cercado pelos colaboradores mais próximos. Lá fora, durante o dia inteiro, multidões encheram a Praça de São Pedro para rezar por ele. Jovens, famílias, idosos, milhares de pessoas mantinham vigília em silêncio.
Às 21h37 daquela noite, João Paulo II morreu. Suas últimas palavras foram ditas em polonês, quase num sopro: "Pozwólcie mi odejść do domu Ojca", deixai-me ir à casa do Pai.

Quando a morte foi anunciada, a multidão na praça começou a aplaudir. Não era alegria: era gratidão. Aplaudiam uma vida bem vivida, uma missão cumprida, chorando e aplaudindo ao mesmo tempo. Logo apareceram cartazes com duas palavras: Santo subito, "santo já". O povo sabia, no fundo do coração, que aquele Papa era santo.
O Funeral e o Legado
O funeral de João Paulo II foi um dos maiores da história. Cerca de quatro milhões de pessoas vieram a Roma, junto com duzentos chefes de Estado, entre reis, presidentes e primeiros-ministros, e a cerimônia foi transmitida para o mundo inteiro. Diante da Praça de São Pedro, houve quem esperasse um dia inteiro na fila para se despedir. Ricos e pobres, católicos e não católicos, todos sentiam a mesma coisa: o mundo havia perdido um gigante.

Canonização
Em 2011, o Papa Bento XVI beatificou João Paulo II, apenas seis anos após a sua morte, uma das beatificações mais rápidas dos tempos modernos. E em 27 de abril de 2014, o Papa Francisco o canonizou. Karol Wojtyla era agora São João Paulo II. Naquele mesmo dia foi canonizado também São João XXIII, o Papa que havia convocado o Concílio Vaticano II, e a Praça de São Pedro se encheu de novo para celebrar.
O Legado de São João Paulo II
O que São João Paulo II deixou para o mundo não cabe numa lista, mas dá para lembrar o essencial. Ele ajudou a derrubar o comunismo com a verdade e a coragem, sem disparar um único tiro. Visitou cento e vinte e nove países levando Cristo a bilhões de pessoas e criou as Jornadas Mundiais da Juventude, que até hoje reúnem multidões de jovens. Perdoou publicamente o homem que atirou nele, defendeu a dignidade da vida do começo ao fim, ensinou sobre o amor e a família na Teologia do Corpo e dialogou com todas as religiões sem jamais esconder a própria fé. Viveu e morreu entregando tudo a Cristo. E deixou para cada um de nós o seu convite mais famoso: "Não tenham medo. Abram, escancarai as portas a Cristo."
Reflexão



